O cheiro era de flores silvestres, e o som da chuva caindo era como um sino que badalava. Aiko abriu os olhos e percorreu a rua inteira procurando a pessoa que transmitia tanta diferença naquele lugar, mas ainda estava um pouco longe. Aiko voltava a fechar os olhos na tentativa de ouvir, cheirar e sentir melhor. Mas com os olhos fechados acabaria esbarrando em quem procurava há tão pouco tempo e já não queria mais ver.
Os livros espalhados pelo chão, o cabelo pingando e os olhos arregalados, era a situação de Aiko.
- Desculpe - O rapaz de cabelo longo e olhar selvagem passava sem olhar atrás.
- Poderia pelo menos me ajudar a pegar os livros antes que fiquem encharcados? - Aiko perguntou na tentativa de olhar mais uma vez nos olhos frios e distante, hipnotizadores disse um tempo depois, do rapaz.
- Não. - Ele respirou fundo, parou de andar e esticou os braços pra cima - Já conheço essa história... E não faz muito meu gênero. - Ele virava devagar - E tecnicamente, você esbarrou em mim... Nem desculpas eu lhe devia. - E ele novamente virava e voltava a andar.
- Ei! Espera! - Após pegar os livros do chão Aiko começou a correr atrás daquele rapaz.
- Hm... - O rapaz parecia não gostar de companhias. Ele revirava os olhos a cada instante.
- Você não é daqui, é? - Aiko perguntava quase caindo ao chão.
- Eu podia até repetir a frase de sempre... A frase que definiu minha família, mas vou apenas dizer que não. - É, o rapaz realmente não gostava, ou simplesmente não queria, companhias.
- A frase que marcou sua família? - Aiko não entendera muito bem, mas ela queria ter entendido.
- Sim. - O rapaz friamente olha para Aiko revelando sua fina pupila preta e seus olhos âmbares e selvagens. Aiko lembrara ao olhar nos olhos do rapaz de uma antiga história, que passava de mãe pra filha.
- Zero? - O sussurro foi quase inaudível, mas ele ouviu.
- Já ouviu falar de mim é? - Ele não parecia surpreso.
- Sim, mas... Você deveria ser...
- Só uma lenda? - Zero a olhava com um olhar tão selvagem que ela mal conseguia encará-lo.
- É... - Ela murmurou entre dentes, desejando não ser ouvida.
- Tudo bem, eu serei. Me esqueça! Eu não existo! - Zero virou e começou a caminha para o lado contrário.
- Não! Espere! - E novamente Aiko corria atrás dele. Ela estava curiosa, queria saber sobre tudo, sobre Zero, sobre tudo mesmo.
- O que você quer? Ter uma história pra contar a sua filha? Sobre um cara maluco e imortal que você conheceu quando ainda era jovem? - Zero agora parecia um pouco descontrolado, mas era apenas um efeito do tempo.
- Você é imortal? - Aiko pergunta bem baixinho, como se nem tivesse feito uma pergunta, e sim uma afirmação.
- Não. Eu morro, se eu tiver a sorte de encontrar meu irmão mais novo. E se eu tiver a sorte de ele ter ficado bom com espadas... - Zero respirou fundo, como se lembrasse de algo distante, algo tão distante que mal vinha a mente direito.
- Mas... Seu irmão mais novo...? - Era possível ver uma interrogação bem grande em cima da cabeça de Aiko.
- Eu só posso ser morto pela espada de um de meus irmãos, uma já se foi, só tem o mais novo, então ao encontrá-lo, ou eu mato, ou eu morro... - Para Zero a escolha era difícil, ele queria matar Liy, mas ele sabia que se matasse seria definitivamente imortal.
- Que irônico... - Aiko dá um sorriso quase invisível. Agora Aiko e Zero caminhavam lado a lado em silêncio.
Fosse qual fosse a escolha de Zero ele teria que fazer logo, afinal, seu destino o esperava a poucos metros...
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